Eu estava a descansar num banco de jardim, vejo aproximar-se um homem e reconheço-o imediatamente. Ele olha-me com curiosidade porque há algo em mim que lhe é familiar.
- Olá, sr. Fernando!
- Ah… estava eu aqui a pensar o que estaria uma senhora tão bonita a fazer sozinha num jardim. Está boa, menina Gina?
- Bem, obrigada. E o senhor, como vai?- Senta-se ao meu lado e dispara uma quantidade de perguntas em série; a família, a loja , a casa, etc. Respondo lacónicamente mas não é por falta de vontade de falar, é porque simplesmente não há espaço suficiente entre as perguntas para que eu possa responder, digamos que assisto a um monólogo. E o monólogo continua mas o assunto já não é a minha vida, é a dele. Dispara afirmações referentes à nora que é uma “isto e aquilo”, os netos que se desenrrascam sózinhos para que a mãe possa sair durante todo o fim de semana, a mulher que vai mal de saúde, a sua própria saúde que já não é o que era, as contas para pagar, etc.
Quem me dera ter um ouvinte como eu sou para os outros. É que eu também tenho medos, dúvidas e angústias e ninguém gasta tempo comigo, dificilmente alguém me escuta. Às vezes também preciso de desabafar, preciso que simplesmente me ouçam sem comentários, opiniões acerca do que deveria fazer ou julgamentos acerca do que fiz.
A alguém que tenha a capacidade de ouvir chama-se amigo. A meu ver, é aí que reside a essência da amizade.